sábado, 14 de abril de 2018

TRUMP, A SÍRA E AS AMÉRICAS NUM MOLHO DE BRÓCULOS


Não surpreende, trata-se da fiel representação do país que Trump tem: O melhor do mundo a destruir e matar, mas dos piores a cuidar a saúde dos seus próprios cidadãos, esta sim uma real e também química guerra civil.   

Enquanto a Síria era bombardeada por Donald Trump, decorria em Lima a VIII Cimeira das Américas. A participação do presidente norte-americano estava confirmada, tanto que, em fevereiro, mandou ao Peru o secretário de estado Rex Tillerson a reunir-se com o então presidente Pedro Pablo Kucksinsky (PPK), para transmitir ordens expressas sobre esta cimeira.

Só quem acredite em coincidências e seja completamente surdo ao que dizem as fontes peruanas ligadas a este processo, pode considerar ter sido uma coincidência que, apenas 11 dias depois, PPK convocasse os ministros dos Negócios Estrangeiros de 13 países do intitulado “Grupo de Lima” que, entre outros, inclui Argentina, o Brasil de Temer, Canadá, Chile, Paraguay Santa Lucia e… esse modelo de Democracia que se chama Honduras. Na agenda, um ponto único: Retirar a Nicolás Maduro o convite para que participe na Cimeira das Américas.

Quem acompanhou o evento sabe da polémica nos bastidores e que PPK não conseguiu o que pretendia, ficando no final com uma mera declaração de respeito pela sua decisão (ver aqui). Apesar disso, foi prémio de consolação suficiente para que retirasse o convite já antes enviado ao ditador venezuelano. Num entusiasmo trumpiano, o anúncio fez-se pelo Twiter.

A cronologia mostra descaradamente aquilo que as fontes do palácio de governo peruano afirmam: Donald Trump colocou como condição para a sua vinda que Nicolás Maduro não estivesse presente. Vejamos: Primeiro, o Peru fez o convite ao venezuelano, depois recebeu o secretário de estado Rex Tillerson para falar sobre a cimeira, em seguida convoca para Lima os ministros dos negócios estrangeiros de 13 países americanos, por fim o convite a Maduro é dado por não dado. Só depois deste processo, no dia 9 de março, o presidente norte-americano confirmaria a sua participação.

A ironia disto tudo, são as voltas que a história dá. Maduro, que foi convidado, depois desconvidado e que afirmou continuadamente que viria e viria, não veio. Pedro Pablo Kucksinsky, que convidou, depois desconvidou  e que, claro, estaria e estaria, tampouco esteve, forçado entretanto a renunciar para não ser demitido no parlamento: Consultoras suas com sede nos EUA prestavam serviços milionários à construtora Odebrecht, enquanto era primeiro-ministro e adjudicava milhares de milhões à mesma empresa brasileira. Por último, também Trump, que confirmou e confirmou, afinal falhou, empenhado que se empenhou no bombardeamento da Síria.

Ironias à parte, este caso mostra bem de que lado da história está o presidente dos EUA. A cimeira das Américas foi criada em 1994 para fomentar o diálogo entre os países do grande continente. Apesar de todas as deficiências inerentes a este tipo de reunião, trata-se dum espaço de confronto pacífico, de diálogo e de procura de consensos. Trump, essa egocêntrica Super Star, não quis partilhar o palco com Nicolás Maduro, um igualmente egocêntrico mas artista de rua. Por fim, a “grande estrela” não quis vir: Ficar e matar noutras bandas, foi um apelo irresistível frente à alternativa de vir e dialogar no seu continente.

Não surpreende, trata-se da fiel representação do país que Trump tem: O melhor do mundo a destruir e matar, mas dos piores a cuidar a saúde aos seus próprios cidadãos, esta sim uma real e também química guerra civil.   

Um aparte final para dizer que, quanto às causas diretas do bombardeamento, não me convencem. Enganaram-me uma vez, e bem enganado, no filme Iraque-2003, quando acreditei e apoiei. Depois disso, jurei a mim mesmo que só com muita prova… E refiro-me apenas às causas diretas, porque aos verdadeiros motivos já os dou de barato: Ali não há nada de humanitário, basta ver a geopolítica e os ouvidos de mercador aos crimes cometidos pelo vizinho do lado.



Luís Novais

quinta-feira, 5 de abril de 2018

DESMISTIFICANDO O 25 DE ABRIL. PRIMEIRA PARTE: O PCP E A AMEAÇA SOVIÉTICA



O alertas dramáticos que Mário Soares começou a lançar nos governos europeus, de que havia orientações de Moscovo e Portugal estava para cair na esfera soviética, não serviram para mais do que cortar um dos elos do nó górdio em que o seu projecto de poder estava metido.

Temos tendência para analisar os acontecimentos com base num binómio intuitivo entre provável e improvável. É isso que nos leva a refletir com base em causalidades óbvias e facilmente identificáveis. Políticos e comunicadores sabem-no perfeitamente, e é por esse motivo que tendem a transformar a realidade-real numa realidade-comunicada. Para isso, a mensagem tem de ser o mais simples e óbvia possível. Geralmente conseguem, impondo mitos que duram gerações.

Quando o senso comum tenta explicar o Período Revolucionário português, que vai de abril de 1974 a novembro de 1975, a explicação óbvia é que tínhamos um Partido Comunista apoiado por Moscovo, que queria sovietizar o país e seguia fielmente instruções vindas da URSS.

Fora dos meios académicos, raramente se refere que, em 1974, estávamos em pleno nesse período a que se chamou a détente, que poderíamos traduzir como “desanuviamento”, um processo de aproximação entre leste e ocidente que terminou na assinatura dos acordos de Helsínquia em 1975. Alguns historiadores falam mesmo no fim da I Guerra fria, situando o início duma segunda em 1979, com a invasão do Afeganistão e a chegada da era Reagen.

Este processo de desanuviamento começa por 1968 e foi impulsionado por interesses conjuntos da União Soviética, da Alemanha Federal e dos Estados Unidos, estes últimos movidos pela dupla Kissinger-Nixon, para mim e fora de qualquer dúvida, o melhor presidente dos Estados Unidos no pós-guerra… eu sei, eu sei, presos às imagens criadas, o sensos comuns não pensam assim.

Só para dar alguns exemplos: Nixon abriu as relações diplomáticas com a China Popular, assinou os acordos SALT II de desarmamento, terminou a presença americana no atoleiro vietnamita, que foi uma herança sem sentido da administração Johnson, conseguiu estabelecer com Moscovo uma cooperação científica nos campos da medicina e da conquista do espaço etc etc. Presos a preconceitos e a imagens que nos formularam, preferimos achar que o herói foi um Presidente claramente impreparado, que entregou Cuba de mão beijada à URSS por andar a brincar aos cow boys na Baía dos Porcos (1961), ou que dizia frases muito estilosas mas que não resolveram nada, tal como essa cheia de glamour:  Ich Been ein Berliner” (1963).

Se é verdade que em 1974 a URSS estava interessada em Angola, não tinha interesse estratégico em Portugal, como bem o demonstra o discurso neutral e orientado à conciliação com que Cunhal aterrou em Lisboa no dia 30 de abril de 1974, depois de 14 anos de exílio em Moscovo.

Quem realmente deu força ao PCP para uma progressiva radicalização, foi a República Democrática da Alemanha (RDA), que se sentia ameaçada pela aproximação entre Bona e Moscovo, iniciada desde que Willy Brandt chegou ao poder. Um Portugal sovietizado acicataria receios no eleitorado federal alemão e por certo seria politicamente explorado pela direita, prejudicando a Ostpolitik de Brandt, que tinha um objectivo claro: a reunificação, ou seja, o fim da RDA.

Os alertas dramáticos que Mário Soares começou a lançar nos governos europeus, de que havia orientações de Moscovo e Portugal estava para cair na esfera soviética, não serviram para mais do que cortar um dos elos do nó górdio em que o seu projecto de poder estava metido: Um PCP com implantação, com experiência política e interessado em cooperar, era uma ameaça para um PS ainda imberbe. Soares sabia bem que os apoios aos comunistas não vinham de Moscovo, mas de Berlim Oriental, e sabia bem porquê. Sabia ele e sabia Willy Brandt, que alinhou no discurso porque a ameaça global que poderia mover o mundo ocidental era a soviética, não a da Alemanha de leste.

A outra frente desse nó górdio era a direita militar, representada por Spínola, com um modelo de democracia cesarista, que não era conciliável com o civilismo soarista. Spínola caiu porque nenhum partido o apoiou e nenhum partido o apoiou porque o general tinha ligações à caserna, mas faltava-lhe a confiança da sociedade civil partidarizada, que tinha outro projecto de poder.

Foi por isso que Soares teve de jogar em duas frentes, a primeira implicava impulsar a esquerda militar e política, para aniquilar Spínola. A segunda, e uma vez acabada a ameaça spinolista, aniquilar o PCP e a esquerda militar. É também por isso que os ataques ao PCP se intensificam a partir do 11 de Março, quando o general ficou fora de jogo, e que só então se dramatizou ao limite, usando o caso “Republica” para acusar o PCP de querer dominar a imprensa. Num pico de confronto, Soares abandonou o governo, fazendo-o cair e obrigando à constituição do V Provisório, sem apoio de qualquer partido, exceto do PCP, ainda assim um apoio muito tímido.

A União Soviética tinha razões estruturais para que Portugal não valesse um recomeço da conflitualidade com o ocidente: Depois dos eufóricos anos 50, a sua economia vinha desacelerando-se progressivamente e todos os planos quinquenais tiveram um crescimento inferior ao anterior. Além disso, segundo um relatório da CIA já desclassificado, o atraso tecnológico soviético era de 4 anos nas máquinas assistidas por computador, 7 a 8 nas mainframes e 4 a 6 em microcomputadores. Acresce que, em toda a década de sessenta, o país tinha sido exportador de grãos e carne, mas na seguinte tornou-se o maior importador mundial. Em 1985 o PIB da URSS era apenas igual ao dos EUA 20 anos antes (CIA, 1985).

Moscovo precisava duma estratégia e tinha-a: Apostar tudo por tudo na exportação de petróleo, usando para isso tecnologia adquirida no ocidente (MAZAT, 2013).

Mas esta dupla necessidade, importar cada vez mais tecnologia ocidental e receber cada vez mais petrodólares, dependia dum desanuviamento da relação geopolítica. E assim percebemos que a política de détente era essencial para o crescimento económico soviético, aliás, para a sobrevivência do próprio país e do seu império, como ficou claro com a extinção da URSS em 1991, na sequência do relançamento da guerra fria em 1979, com o consequente falhanço da estratégia.
É por isso que, exercida alguma pressão ocidental sobre Brejnev em Julho-Agosto de 1975, este não esperou muito para falar com Honecker, o líder leste alemão, mandando-lhe que acabasse com todo o apoio que estava a dar aos comunistas portugueses. O aviso foi tão explicito, que terá dito não estar disposto a prejudicar a política de aproximação ao ocidente, “por uma mão cheia de comunistas portugueses ansiosos” (WAGNER, 2006). A partir de aí, Berlim Leste deixa de apoiar o PCP e é, precisamente, também a partir daí, que o discurso de Cunhal, que se vinha radicalizando desde dezembro de 1974, volta a moderar-se, até terminar no célebre comício do campo pequeno, em dezembro de 1975, já no rescaldo  do 25 de novembro, onde se alinhou claramente pelo modelo de democracia representativa ocidental e atacou os extremismos revolucionários.
Há vários factores que levam a opinião pública a acreditar numa ameaça soviética durante o período revolucionário, mas nenhum corresponde à verdade. Um, é o discurso que praticaram todos os partidos à direita e à esquerda do PCP, acusando-o de ser um "lacaio" de Moscovo. Outro, é uma certa mania das grandezas: Objetivamente, ter a URSS como inimiga, é um muito mais apetecível do que uma mera RDA. Trata-se dum mito, mas é um mito que fez mover a política… lá dizia Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”.

Num próximo artigo, abordarei a questão das nacionalizações que se seguiram ao 11 de março de 1975, outro tema que também está cheio de mitos.


Luís Novais


Bibliografia:
CIA
1985      “A Comparisation of the US and Soviet Economies: Evaluating the performance of the soviet system” (Desclassificado em 1999). (Consulta: 20.03.2018): https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/DOC_0000497165.pdf
MAZAT, Numa
2013      “Uma Análise estrutural da Vulnerabilidade Externa Econômica e Geopolítica da Russia” (Tese de doutoramento). Rio de Janeiro: UFRJ.
WAGNER, Tilo
2006      “Portugal e a RDA durante a Revolução dos Cravos. In:  Relações Internacionais, n.º 11, Setembro, pp 79-89

quinta-feira, 29 de março de 2018

A PESTE BORBÓNICA


A monarquia borbónica está transformada numa peste borbónica, analogia a essa doença que, noutros tempos, vitimou muitos, sem distinção de quem era plebeu, aristocrata… ou rei.

Poucos sabem que o Peru, país onde vivo e amo como segunda pátria, esteve para ser uma monarquia. Chegado aqui desde a Argentina em 1820 e com o apoio do Chile, o “libertador” José de San Martin encontrou um território com tanta diversidade e tanto confronto potencial, que considerou só com um rei se poderia unificar. Foi a contradição entre esta perspectiva e a megalomania dum Simon Bolivar, interessado no nunca alcançado objectivo de ser o George Washington latino-americano, a impedir uma saída que, por esse tempo, se iniciava com êxito no Brasil.

Em 1822, o país já tinha declarado a independência há um ano e continuava sem forma de governo. Foi nessa altura que a “Sociedade Patriótica de Lima” organizou um debate em torno de duas opções: Monarquia ou República?

Destacaram-se as intervenções de Ignacio Moreno e Perez Tudela. O primeiro, partindo de Montesquieu, defendeu que o novel país tinha tantas diferenças, considerou que o povo estava tão mal preparado para o sistema republicano, que só uma monarquia seria viável. O segundo, Perez Tudela, baseando-se em Rousseau, defendeu que, apesar das diferenças, havia algo que unia todos os seres humanos e esse algo era o desejo de ser livre. Concluindo que a liberdade só se realiza planamente numa república, defendeu esta via.

Ambos partiam de ideias incorrectas para justificar um modelo. Nem a monarquia moderna se reveste do autoritarismo que Moreno nela encontrava e desejava, nem, por isso mesmo, é contrária à liberdade com que Moreno a via incompatível.

Mais do que governante, um rei moderno tem razão de ser quando consegue ser a “chave”, nome que se usa também para a peça central dum arco, aquela que sustem as pressões de ambos os lados, mantendo unidas todas as aduelas com que se ergue. Quando o monarca assume esse papel, tem uma razão de ser nos estados modernos, quando não o faz, torna-se na antítese da sua função e fica apenas como mais um factor de desunião.

Para isso, o rei tem muitas vezes de anular a sua liberdade de expressão e de acção. Mas ninguém é obrigado a sê-lo e, lá dizia a epifânia de Afonso IV pela pena de António Ferreira: “Ninguém é menos rei do que quem tem reino”.

Dependendo dos casos, um rei pode prestar grandes serviços à república, entendendo esta como um conjunto de cidadãos e, portanto, de seres humanos livres. Foi graças a um modelo monárquico, que o Brasil conseguiu ter a dimensão que tem, não se desmembrando como aconteceu à restante América latina. Foi também graças a isso, que a sociedade espanhola ultrapassou o trauma da guerra civil, conseguindo encontrar os pontos de união que lhe permitiram mudar de regime pacificamente, preferindo incorporar os problemas inerentes a uma transição consensual, do que aqueles que advêm duma revolução. Não é segredo para ninguém que Juan Carlos de Borbón foi um fiel discípulo de Franco, chegando mesmo a governar ditatorialmente durante a doença do caudillo em 1974. Mas até a esquerda espanhola, até as regiões mais independentistas, viram no rei uma alternativa ao caos. Foi por isso que a constituição de 1978 foi referendada e aprovada sem problemas de maior, método de aprovação que em Portugal já tinha sido usado em 1933.

O problema surge quando o rei não entende o drama de ser rei e quer sê-lo. Quando isso acontece, passa a ser parte do problema e entra no modelo de monarquia pré-contemporânea (ou ainda contemporânea em muitos países), essa que tinha outras justificações e outras legitimidades.

O caso catalão é um grande exemplo de que isso está a acontecer em Espanha. Em vez de ser o garante dessa liberdade de que Rousseau falava, perdendo-se como última instância, deixando de ser a tal “chave” que consegue suster as pressões de ambos os lados do arco, Filipe de Borbón é, hoje, um líder de facção que atua contra a vontade, ou maioritária ou de grande parte dum povo. É preciso não entender o processo histórico espanhol iniciado em 1975, para nos agarrarmos à letra duma constituição, que pode ter sentido num contexto, mas que hoje já não tem e relativamente à qual não se mostra a mínima abertura reformista.

O historiador Valério Arcary escreveu que as revoluções são “…uma das formas a que as sociedades contemporâneas recorreram para resolver tarefas históricas que permaneceram pendentes”. Segundo ele, uma revolução é uma estratégia de mudança excepcional e que raramente é usada porque, para que ocorra,  “…é preciso que todas as outras vias tenham sido antes bloqueadas e esgotadas”[1]

A perseguição desmedida que o reino de Espanha está a fazer aos independentistas; a incapacidade para negociar e para encontrar alternativas que, não necessariamente, teriam de passar pela independência, mas que teriam que aceitá-la como possível ponto de chegada; a paranóia de Rajoy suportada em Filipe; a total inflexibilidade contra o desejo (maioritário ou duma grande parte) dum povo… Tudo, mas absolutamente tudo, é prenúncio de tragédia, porque anuncia que todas as vias estão “bloqueadas e esgotadas”.

A monarquia borbónica está transformada numa peste borbónica, analogia a essa doença que, noutros tempos, vitimou muitos, sem distinção de quem era plebeu, aristocrata… ou rei.



Luís Novais




[1] Arcary, Valério, As Esquinas Perigosas da História. Situações Revolucionárias em Perspectiva Marxista, São Paulo, Xamã, 2004, p. 27.


domingo, 12 de novembro de 2017

OCIDENTE EM CRISE



Esta é a crise que enfrentamos. Uma crise que se mascara de várias roupagens, veste-se aqui de crise económica, ali de crise de valores, acolá de crise social. Mas, afinal, por muitas diferentes roupas que lhe vistamos, é uma e única: Uma crise filosófica; esses mesmos fundamentos filosóficos que nos permitiram chegar aqui, entraram num curto-circuito que não estamos a conseguir resolver.

Com uma clara influência das leituras ávidas que sempre fiz dos livros de António Damásio, que tenho em Portugal com pena de não os dispor na minha biblioteca peruana, percebi que a característica filogenética distintiva  da nossa espécie é essa capacidade única que temos: A consciência do eu, baseada naquilo a que o próprio Damásio chama “memória autobiográfica”.

Somos a nossa memória e somos o personagem “eu” que, graças a ela, criamos. Todo o nosso corpo é constante mudança, a matéria que nos compõe é renovação permanente e grande parte dela não era “nós” há uma ou duas semanas. Mas continuamos a ser “eu” e, ao sermos “eu”, parimos o “outro”. Cria-se uma fronteira entre o "mim" e o "não mim", a unidade cósmica perdeu-se no meio da evolução que atingimos.

A mitologia sempre procurou resolver este drama, umas vezes encontrando nele um castigo que temos de padecer, para um dia, redimidos, voltarmos ao eterno absoluto. Que é o jardim do paraíso? O que é, se não essa unidade perdida? Essa consciência de quem se atreveu a morder o fruto do conhecimento e, mordendo-o, tomou consciência de si. Adão cobriu-se de Eva e Eva cobriu-se de Adão, porque Adão percebeu que Adão não é Eva e Eva percebeu que Eva não é Adão.

Noutros mitos, Prometeu expia a culpa universal porque foi ele quem deu a luz à humanidade, a luz,  eterna metáfora do conhecimento e da consciência. Essa mesma culpa que será, depois, expiada também por esse outro grande personagem histórico que é Cristo.

Noutras latitudes, os nativos shipibas, da Amazónia, são conhecidos pelas linhas que traçam em todos os seus utensílios, em todos os seus tecidos. Eles creem que o mundo já foi um só todo, unido, sem separação, e essas linhas são a sua eterna procura da união perdida.

Quando entramos na filosofia, pensemos como, na nossa civilização ocidental, o problema foi criteriosamente resolvido por Platão. Somos unos e divididos, divididos na matéria, que é fonte de falsidade, unos e universais nesse mundo das ideias, onde reside a verdade. E é por isso que, para Sócrates, o conhecimento é um lento despertar, um exercício da recordação que trazemos desse mundo que nos transcende e donde viemos. Em Fédon, Sócrates está feliz porque vai morrer, já que, morrendo, acredita que irá regressar à eterna Verdade.

A transcendência e a Verdade universal que aí se encontra, são os dois pilares da sociedade ocidental. Buscamos a verdade porque acreditamos na transcendência. Nenhum sistema ocidental deixou de crer nisso, ainda que tenham variado os modelos e as liturgias para alcançar esse eterno absoluto.

A aventura dos sentidos que foi o renascimento e, posteriormente, o positivismo que se vai paulatinamente afirmando no século XIX, apenas momentaneamente refreado pela reação romântica, vão criando um problema de difícil solução. Já Descartes (1596-1650) o escancarou, quando foi incapaz de encontrar coerente resposta para o contacto entre res cogita e a res extensa. Esse ponto de união seria a busca obsessiva duma geração de pós-cartesianos, que incluiu o faustoso Leibnitz (1646-1716) e o humilde Espinoza (1632-1677). Mas eram respostas insuficientes e a quase infantil teoria Leibnitizana seria, e bem, até ridicularizada no “Cândido” de Voltaire (1694-1778).

Não compreendemos a importância de encontrar uma resposta, se não nos consciencializamos de que qualquer civilização nasce a partir da solução que encontra para o problema filogenético humano, e é por isso que nenhuma se  mantém se deixa de poder suportar-se nesse pilar fundador  que, no nosso caso, é precisamente aquele que Platão cimentou: A transcendência, que reúne o que se separou, e a Verdade que daí resulta.

Nietzche (1844-1900) diria que o cristianismo é platonismo com Deus, e o crescimento cristão no ocidente, numa altura em que o próprio império que o expandiu estava em risco de desagregar-se, como viria a suceder, explica-se pelo caldo cultural em que se tornou num modelo religioso, num modelo de vida e até num modelo de racionalidade. Porque isso é certo: Desde os áticos que o racionalismo se impôs no ocidente e o primeiro desafio da novel religião foi unir pontas que pudessem ligar racionalidade com religiosidade, tarefa que se empreendeu desde São Justino (100-165), com picos sublimes, como aqueles que atingiram Santo Agostinho (354-430) ou São Tomás de Aquino (1225-1274). Desde esses primórdios que estão presentes os modelos platónicos, desde eses primórdios que se procura resolver os respetivos problemas que ficaram em aberto e que se empreende uma síntese entre o mundo racional e o religioso. Sem que os primeiros filósofos cristãos tivessem feito esse esforço, a nova religião jamais atingiria aquele patamar que as elites exigiam para aderirem a algo que, de contrário, seria visto como meramente plebeu e fruto da ignorância.

Se fizermos uma ponte entre a medieval questão dos universais, e a capacidade de Kant (1724-1804) para resolver o paradoxo do absoluto e do contingente, percebemos que foi o professor de Koningsberg quem deu ao século XIX as bases filosóficas essenciais para que pudesse seguir o método científico como nova liturgia de chegada, ou de aproximação, a uma verdade transcendente, condição sine qua non para que o ocidente prosseguisse, sem perder o contexto dos seus pilares fundadores.

Entretanto, muitas coisas foram mudando e, nessa incessante busca pela transcendência, fomos chegando a outras conclusões. A primeira, que de uma mesma realidade se podem fazer diversas “verdades”. A perspectivação modernista, que inclui os ângulos múltiplos de Picasso (1881-1973), ou o desdobrar de personalidades de Pessoa (1888-1935), têm esse significado, tendo-se chegado a extremos de negação dum sentido para tudo, na orgia dadaista, ou no refugio dentro dum mundo interior, subjetivo, na loucura de Dali (1904-1989).

Mas a voragem não ficava por aí. Chomsky (1928 - ) mostrou bem como as técnicas de comunicação começaram a criar um abismo entre o real e o percepcionado, e como a manipulação da mensagem podia criar um real manipulado. E eis que começamos a entrar de frente na angústia pós-moderna, uma crise mental de grandes proporções, se tivermos em conta que esta perda de convicção numa verdade que seja em si mesma, não surge numa civilização qualquer, se não naquela que desenvolveu 2.500 anos de pensamento tendo-a como base para a resolução do mais humano dos problemas, a consciência de nós, com a consequente desfragmentação da unidade cósmica.

Mudo de parágrafo, para dar às frases que se seguem o destaque que lhes quero dar, uma espécie de perspectiva do problema da actualidade: Foi a crença na transcendência que nos obcecou pela procura de uma verdade absoluta, e foi essa procura que nos levou a concluir que a verdade é que a transcendência não existe e, consequentemente, nem sequer a verdade ela mesma.

Esta é a crise que enfrentamos. Uma crise que se mascara de várias roupagens: Veste-se aqui de crise económica, ali de crise de valores, acolá de crise social. Mas, afinal, por muitas diferentes roupas que lhe vistamos, é uma e única: Uma crise filosófica; esses mesmos fundamentos filosóficos que nos permitiram chegar onde chegamos como civilização, entraram num curto-circuito que não estamos a conseguir resolver. E é por isso que andamos perdidos, em busca de novos absolutos, de novas morais que cada grupo ou micro-grupo procura impor absolutamente. O politicamente correto e as vestes que se rasgam contra aqueles que não o seguem, feminismo, nacionalismo, novas religiões, vegetarianos, ascetas, radicais dos direitos animais, neo-espiritualidades, micro-causas, bem intencionadas, mas agigantadas como se fossem o absoluto fundamento... Tudo isto são procuras desesperadas de novos universais, tudo são substituições de um algo que sentimos ter perdido sem que tenhamos bem consciência de quê. Por fim, tudo nada resolve, porque somos uma civilização de absoluto absoluto, e quem assim nasce não se reencontra em parcelas absolutamente emparceladas.

Precisamos urgentemente de voltar aos fundamentos. Precisamos urgentemente de sair da orgia tecnológica em que nos afundamos, para debater o que é ser-se humano e o que é ser-se parte duma civilização. 

Terminemos com uma metáfora. Enquanto em Lisboa se organizava um evento superficial chamado Web Summit, com todo o impacto que significativamente possa ter, em Abrantes fazia-se um Festival de Filosofia. Quantos não souberam do primeiro, e quantos souberam do segundo?



Luís Novais


Foto: A Expulsão do paraíso, Capela Sistina.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ENSAIANDO VISÃO



O Peru é assim,. Vamos por uma serra de nós perdida, mas que sabe de si. Na esquina dum monte, encontramos uma comunidad campesina encalavrada nos maciços, onde os lençois da terra arável que é de todos, são entreges em usufruto a cada família para que dela retire sustento, mantendo-se o tê-la de todos: dos que viveram, dos que vivem e dos que viverão. Da vontade coletiva, nascem também empresas comunitárias, com decisões tomadas em assembleias de todos os comuneros. Estamos na comunidad de Pincahuacho, em Apurimac, e foi dessa vontade coletiva que nasceu este hotelzinho, com banhos termais, mantidos das águas quentes e ferrosas que brotam do coração andino. 
Só quem nunca assistiu às assembleias de comuneros, amplamente participadas, onde se partilham sabedorias que ancestralmente se renovam, pode afirmar sem tremer que apenas temos essa via económica e social que, por nossa ignorância de mundo, nos acreditam ser a única... Se uns ensaiam cegueira, outros fazem visão. 
“Há mais coisas no céu e na terra do que imagina a tua vã filosofia, Horácio”... viaja de sentidos abertos, Horácio, e enche-te de sentir.

domingo, 5 de novembro de 2017

CANTAM HOSANAS CELESTES PARA SI, ACENDEM FOGUEIRAS E MASTURBAM-SE NOS OUTROS



Não se entende aqueles que, por um lado, querem a emoção cristã e a razão kantiana para si, ao mesmo tempo que o ódio de Torquemada com a razão de Maquiavel, para os outros.

Tenho assistido a tantos debates contraditórios sobre a questão catalã, que sinto necessidade de fazer algumas precisões. Não há maior falta do que aquela que cometetemos contra nós mesmos, contra o nosso pensamento, contra as nossas convicções. A nossa moral é o princípio máximo da soberania do “eu” enquanto ser consciente, livre e autónomo. E é por isso que o maior dos crimes é o que cometemos contras as nossas convicções, crenças, razão e moral. Dostoievski, sempre ele, ilustrou esta ideia de forma sublime em “Crime e Castigo”.

Hoje mesmo debatia com alguém que, candidamente, defendia ter Espanha feito muito bem em impor o "Estado de Direito" aos independentistas catalães, já que tudo mais não seria do que o funcionamento da justiça. Expliquei-lhe as tristes pontuações que o reino dos Bourbons tem no que respeita à independência dos tribunais, o que aliás está bem visível na forma como o poder executivo se atreveu a antecipar a decisão dos juizes. Falei-he também no criminoso caso GAL e que, no Peru onde vivo, há um ex-presidente que está preso por uma situação semelhante, enquanto Filipe Gonzalez se passeia alegremante e tem a desfaçatez de tomar posições públicas sobre a Catalunha e outros casos.

A resposta que recebi gelou-me o sangue: “GAL – A operação Luso-Espanhola que pôs a ETA de joelhos” (não comento a referência a Portugal, que deve ser uma forma de incluir-se na gesta). A resposta foi óbvia: Quem assim pensa não pode usar argumentos de Estado de Direito contra catalãoes que têm as mão brancas, ao mesmo temp que defende ações ilegais e criminosas, que estão a milhas da margem do Estado de Direito, praticadas por governantes que ficaram com as suas tintas de sangue.

A questão é muito simples, todos precisamos de valores fundamentais e, quando não os seguimos, o primeiro crime que praticamos é contra nós própios. Não somos de ferro e falhamos, mas sei bem quais são os meus: sou emocionalmente cristão e racionalmente kantiano. Emocionalmente, jamais me renderei ao “anti-cristo” e, na razão, Maquiavel nunca conduzirá a minha moral.

São estas firmes convicções que me fazem nortear as causas que abraço. Sou pelos Direitos Humanos, sou pela “Democracia” (que é muito diferente das democracias, pelo menos de algumas) e sou pela dignidade humana, incluindo a justiça social.

Direitos Humanos, Democracia, Justiça Social, eis as sagradas constituições. Todas as que daqui não partam, são inconstitucionais. Como humanidade temos de nos pôr de acordo no essencial, e é a partir daí que podemos e devemos disfrutar das saudáveis diferenças.

No mínimo, pede-se coerência. Não se entende aqueles que, por um lado, querem a emoção cristã e a razão kantiana para si, ao mesmo tempo que pedem o ódio de Torquemada com a razão de Maquiavel, para os outros.

Estes são os piores que temos: Cantam hosanas aos céus onde sonham chegar, ao mesmo tempo que acendem fogueiras assassinas e se masturbam no outro!


Luís Novais 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

OBVIAMENTE, DEMITO-ME. A carta da ex-ministra e a situação a que chegamos.


Sabemos, agora, quantos portugueses pagaram pela partidarização do aparelho de Estado, uma doença que nos tem vindo a corroer e que, infelizmente, é transversal: não é nem foi exclusivamente induzida pelo atual primeiro-ministro.

Logo a seguir à tragédia de Pedrógão pedi, insistentemente, que me libertasse das minhas funções e dei-lhe tempo para encontrar quem me substituísse, razão pela qual não pedi, formal e publicamente, a minha demissão”.

A carta com que Constança Urbano de Sousa se demite, revela uma situação demasiadamente má para ser verdade. A argumentação que usa, não difere muito daquela que foi usada por quase todos os que, nos últimos tempos, defenderam a sua saída, por óbvia falta de autoridade. “Não tinha condições políticas e pessoais para continuar no exercício deste cargo”, estas palavras não são proferidas pelos que expressaram esta mesma ideia, alguns desde Pedrogão Grande, mas pela própria Constança Urbano de Sousa. Desta vez, “tem de aceitar”, quase suplica!

Com esta carta, aquela que, até hoje, foi responsável pela pasta da Administração Interna, iliba-se de qualquer responsabilidade pela trágica situação a que chegamos em Outubro, uma responsabilidade que recai agora e inteiramente na teimosia do próprio primeiro-ministro. “Dei-lhe tempo para que me substituísse”, diz, referindo-se ao período posterior a Pedrogão Grande.

Sabemos então que o país não só estava com um comandante de proteção civil interino, mas que interina era também a própria ministra, metida num limbo político enquanto aguardava que António Costa lhe nomeasse sucessão. E isto aclara as causas da descoordenação, da incapacidade para responder à situação no terreno e, até, o famoso desabafo relativo à ida de férias.

Esta ausência real de autoridade política em exercício, explica também muitas das situações que estiveram na origem do drama. Explicam que ninguém tivesse decidido alargar o período de alerta, apesar das óbvias condições climáticas. Explica que apenas tivéssemos 18 meios aéreos, contra os 48 de 15 dias antes. Explica que os postos de vigilância estivessem vazios porque ninguém considerou que, dada a situação, se deveria ter alargado o contrato com os vigilantes… Todas estas decisões podem e devem ser tomadas, mas exigem comando e decisão política, e já sabemos que na Proteção Civil tínhamos um interino e à frente do ministério, também.

Mas além de tudo isto, foi-nos revelado algo ainda mais terrível: A substituição dos comandantes de proteção civil foi feita dois meses antes de começar a época de incêndios, e temos mais do que razões para concluir que o critério das escolhas não foi a competência, mas a proximidade político-partidária (ver aqui).

Numa entrevista ao Expresso, o presidente da Câmara de Viseu denunciou a inoperância do novo comandante distrital, um dos 13 que entraram em Abril deste ano, depois da exoneração dos anteriores. Tudo isto entre diversas outras mexidas na estrutura organizacional, com escolhas que recaíram em algumas pessoas sem currículo pessoal, mas com currículo partidário.

Aliás, o melhor exemplo desta politização foi a nomeação do próprio Presidente desta estrutura, Joaquim Leitão, o que na altura gerou protestos. Em 2005 tinha sido adjunto no Ministério da Administração Interna, quando António Costa era ministro, um ano depois, com o atual primeiro-ministro no mesmo cargo, foi nomeado segundo comandante na Autoridade de Proteção Civil e em 2008, como presidente da Câmara de Lisboa, nomeou-o comandante do regimento de Sapadores Bombeiros. Conclusão: Claramente não foi uma escolha da ministra mas do primeiro-ministro e, quanto às restantes mexidas,  temos motivos para crer que foram decididas da mesma forma e, até, com intromissão das estruturas partidárias locais.

Num artigo que escrevi recentemente, a propósito da assombrosa entrevista de José Sócrates, salientava que um dos maiores custos dum corrupto é subverter a hierarquia das opções: As mais rentáveis para o decisor, em detrimento das mais necessárias para o país. Concluía que, em junho, 65 portugueses tinham pago o respetivo preço da pior forma. Sabemos, agora, quantos portugueses pagaram também pela partidarização do aparelho de Estado, uma doença que nos tem vindo a corroer e que, infelizmente, é transversal: não é nem foi exclusivamente induzida pelo atual primeiro-ministro.




Luís Novais